A dramaturgia brasileira perdeu nesta terça feira, 18 de agosto de 2026, uma de suas maiores referências. Laura Cardoso morreu aos 98 anos, após uma carreira de mais de oito décadas dedicada ao rádio, teatro, cinema e televisão.
A informação foi divulgada pela família nas redes sociais durante a madrugada. Segundo informações da filha da atriz, Fátima Cardoso, Laura passou mal em sua residência, em São Paulo, na noite de segunda feira, dia 17, e morreu por causas naturais.
Nascida em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni começou sua carreira artística ainda adolescente. Aos 15 anos, iniciou sua trajetória no radioteatro, antes mesmo da chegada da televisão ao Brasil.
Ao longo de mais de 80 anos de carreira, Laura Cardoso se transformou em uma das artistas mais respeitadas da história do país, atravessando diferentes gerações e interpretando mais de uma centena de personagens.

Uma carreira que começou antes da televisão brasileira
Laura Cardoso começou no rádio durante a década de 1940, participando de radionovelas e programas de radioteatro.
Em 1952, poucos anos depois do início das transmissões televisivas no Brasil, ela estreou na TV Tupi, tornando se uma das pioneiras da televisão nacional.
A atriz acompanhou praticamente toda a evolução da dramaturgia brasileira. Passou por diferentes emissoras e participou de novelas, teleteatros, séries e minisséries.
Na TV Globo, onde se tornou uma das artistas mais reconhecidas de sua história, Laura estreou em Brilhante, em 1981, interpretando Alda Sampaio.
A partir daí, construiu uma extensa trajetória na emissora, participando de produções que marcaram diferentes épocas da televisão brasileira.

Mulheres de Areia, A Viagem e outros personagens inesquecíveis
Entre tantos trabalhos, alguns personagens se tornaram especialmente importantes na memória do público.
Em Mulheres de Areia, de 1993, Laura interpretou Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas por Gloria Pires.
No ano seguinte, esteve em A Viagem, como Dona Guiomar, personagem que ganhou ainda mais destaque durante a trama.
Laura também participou do remake de Irmãos Coragem, em 1995, interpretando Sinhana, papel que lhe rendeu o prêmio APCA de Melhor Atriz.
Sua carreira ainda passou por novelas como:
• Rainha da Sucata
• Felicidade
• Explode Coração
• Chocolate com Pimenta
• Caminho das Índias
• Gabriela
• Flor do Caribe
• Império
• Sol Nascente
• O Outro Lado do Paraíso
• A Dona do Pedaço
Em Chocolate com Pimenta, Laura conquistou uma nova geração de espectadores ao interpretar Vó Carmem.
Já em Caminho das Índias, viveu Laksmi Ananda, mostrando novamente sua capacidade de transitar entre personagens completamente diferentes.
Em Sol Nascente, interpretou Dona Sinhá, uma personagem que surpreendeu o público ao revelar um lado bastante sombrio e calculista.
Laura Cardoso também fez história no cinema
Embora sua imagem esteja fortemente ligada à televisão, Laura Cardoso também construiu uma carreira importante no cinema brasileiro.
A atriz participou de mais de 20 filmes e esteve presente em produções de diferentes períodos do cinema nacional.
Entre os destaques estão Terra Estrangeira, de 1995, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, e Através da Janela, de 2000, no qual interpretou Selma e recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Miami.
Também participou de filmes como O Outro Lado da Rua, Quincas Borba, Primo Basílio, De Onde Eu Te Vejo e De Perto Ela Não é Normal.
Sua filmografia mostra que Laura nunca foi apenas uma atriz de televisão. Ela construiu uma presença constante também no cinema e no teatro.

A voz de Betty Rubble
Para quem cresceu assistindo desenhos animados, Laura Cardoso também deixou uma lembrança bastante especial.
A atriz foi a voz brasileira de Betty Rubble, de Os Flintstones, durante a década de 1960.
O trabalho de dublagem era pouco conhecido pelo grande público durante muitos anos, mas Laura revelou posteriormente o carinho que tinha pela experiência.
É mais um exemplo de como sua carreira atravessou diferentes áreas do entretenimento brasileiro.

O teatro nunca ficou de lado
Apesar da enorme popularidade conquistada na televisão, Laura Cardoso nunca abandonou o teatro.
Sua trajetória nos palcos começou ainda nos primeiros anos de sua carreira e continuou durante décadas.
Ela trabalhou com importantes nomes da direção teatral brasileira e recebeu dois prêmios Shell de Melhor Atriz, em 1990 e 1993.
Para Laura, o teatro tinha um papel fundamental em sua formação como artista e na relação entre ator, texto e personagem.
O último trabalho de Laura Cardoso na televisão
A última novela de Laura Cardoso foi A Dona do Pedaço, exibida pela Globo em 2019.
Na trama de Walcyr Carrasco, a atriz interpretou Matilde, avó de Joana, personagem de Bruna Hamu. Foi sua última participação em uma novela.
Mas isso não significou o fim de sua carreira.
Em 2025, Laura participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo, aparecendo ao lado do bisneto Fernando.
No mesmo ano, também participou do curta metragem Dona Rosinha, dirigido por KK Araújo, que acabou se tornando seu último trabalho como atriz. No filme, interpretou uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus.
Em 2025, ela também participou da inauguração de sua estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.
Uma atriz que nunca quis se aposentar
Talvez uma das características mais marcantes de Laura Cardoso tenha sido sua relação com o próprio trabalho.
Mesmo depois dos 90 anos, a atriz rejeitava a ideia de aposentadoria.
Ela costumava afirmar que não conseguia imaginar a vida sem atuar e chegou a dizer que não queria ser vista como uma “velhinha que faz tricô”. Para Laura, continuar interpretando significava continuar vivendo.
Em uma entrevista concedida à Folha em 2023, a atriz também falou sobre sua relação com a profissão e afirmou que amava a carreira e a própria vida.
Sua visão sobre a cultura também permaneceu firme até os últimos anos. Para Laura, a arte tinha uma função essencial na sociedade.

O legado de Laura Cardoso
Laura Cardoso não foi apenas uma atriz de novelas.
Ela foi uma testemunha e participante da própria história do audiovisual brasileiro.
Começou no rádio antes da televisão existir no país, acompanhou o nascimento da TV brasileira, passou por diferentes emissoras, participou de novelas que se tornaram clássicos, atuou no cinema, no teatro, na dublagem e continuou trabalhando praticamente até o fim da vida.
Foram mais de oito décadas de carreira e personagens que atravessaram gerações.
Hoje, o Brasil se despede de uma de suas maiores atrizes.
Mas personagens como Isaura, Dona Guiomar, Vó Carmem, Dona Sinhá, Matilde e tantos outros continuarão presentes na memória de quem acompanhou a televisão, o cinema e o teatro brasileiros.
Laura Cardoso morreu, mas sua obra permanece.
E talvez esse seja o maior legado que um artista pode deixar.



